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As Crónicas do Senhor Barbosa III

O Senhor Barbosa acredita que já nada o pode magoar. Nem o desprezo passado, presente ou futuro, nem o cão esgalgado da vizinha, de dentes longos, nem a hesitação insípida do amor mais ou menos alvoroçado, nem a morte, nem nada. Nada mais lhe poderá acontecer de tragédia inventada. Já outros a inventaram por si. Olha para os reflexos e sabe que isto é de uma tal arrogância que até lhe faz doer os dentes postiços. Ri-se e prossegue a acreditar na sua recém-criada fortaleza inexpugnável. Mas, o Senhor Barbosa não fecha os olhos debalde, e sabe que, em tempos difíceis, às vezes é preciso morder a laranja para a poder descascar. Nada significa o que quer que seja até ao dia seguinte, altura em que voltamos a fazer contas à vida. É quando o riso cessa. Sabe isto e mesmo assim ri. Porque não? Está tão bêbado que outra coisa não lhe ocorreria fazer. O que é difícil é ultrapassar a espera pelo dia seguinte. Ali estava outra vez o ruído. Aquele ruído frio, cortante, vertical, que tão bem conheci…
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Saudade de ver bons Filmes (XII)

Chegou por fim às salas de cinema, o muito aguardado (por mim pelo menos) "England is Mine", o filme que retrata a vida do icónico Morrissey, durante o período dos seus primeiros anos em Manchester, antes de vir a tornar-se o seminal vocalista e letrista dos "Smiths".

Produzido por Orian Williams, o mesmo senhor que nos apresentou "Control"- 2007 realizado por Anton Corbijn, que brilhantemente nos explana a omnipresente obscuridade e queda de Ian Curtis, o saudoso vocalista da banda "Joy Divison", que se suicidou a meio dos seus vinte anos. "England is Mine", tenta repetir o mesmo feito, aplicando  igual fórmula a Morrissey, e, ainda que o cartaz promocional diga: "Captura perfeitamente o enigma por trás de Morrissey, o maior ícone da música Indie", o filme decepciona imenso fãs e curiosos por igual, pois sendo fiel à absoluta realidade do seu tempo de então, apresenta um Steven Patrick Morrissey, longe de se cumprir como a fi…

Dia sim, dia não uma beleza antiga

Constante de Planck

Stop!

Encaremos os factos: ninguém quer realmente saber.  Se escrever mudasse cabeças,  já tantas teriam caído há mais tempo que as ervas daninhas demoram a apodrecer
entre os espaços nulos do bem e do mal.
Já entendi, sim, eu percebi, não me fazem nenhum favor
contra estas coisas minhas. Estou tramado, como sempre estive de qualquer maneira. Tenho dias de folha vazia, e outros de parecer escritor. (nem sei qual o grande escândalo sobre isto, é usual).  Uns dias escrevem-se ódios por canseira outros não. Outros são
cidades deprimentes, espreguiçadeiras
carícias de mãe, outros não.
Outros não
são
desintegrados alguns, golpeados e violados.
Tenho dias em que não me apetece correr nenhuma corrida
à altura impossível do frasco de biscoitos
outros são dias roubados
e outros ainda, enormes tesouras de podar que mais cortam ao redor de mim mesmo. Das coisas que me matam por igual
ressalvo as grinaldas do poder crescendo sozinhas a favor desta frustração. É um vagar que se ganha com a idade, 
é. Deixar-me de alarmes falsos e pas…

M is for Mundo, Cure is for Miro

Jogos de Adivinhas

Já não vou escrever uma rosa na janela fechada
que são os teus olhos a querer adormecer junto ao
parque verde da cidade, nem vou ser o novo grande
poeta que tu um dia esperaste que eu fosse:
este poema não é meteorológico mas eu consigo
adivinhar o vento e a chuva todas as manhãs,
tal como conheço os críticos e sei que não sirvo
para gatinhar noutra casa que não seja a do teu coração.

Até tu já adivinhas as tantas coisas que faço
para te inventar um sorriso, e tão fácil me parece
quando o consigo, tanto quanto foi nascer assim,
fora de mão, e para o resto do sempre ter os pés
à margem dos caminhos das certezas. Sim, reconheço:
sou um poeta sem qualidades para os líricos do meu tempo
e só a minha utopia não lamenta as tantas palavras
que desconheço para me dizer de um outro lado.
Não alcancei o fingimento, não sei se vou ou não por aí,
tenho a liberdade livre dos aldeões pacientes,
o sossego de poder acordar junto de ti.

Não exijo mais nada, como te disse,
adivinhei a maneira certa de adormecer
com o barul…

Anti-gripe aos gomos

R.I.P. Shiva

ATENÇÃO - Este post contêm'Spoilers'

Gosto tanto, tanto de gatos. Gosto de animais em geral, de felinos em particular, mas, isto ou é banalmente ridículo da minha parte ou certas séries tem mesmo um poder catalisador sobre as nossas emoções, na maneira como nos fazem sentir tão afins com determinados personagens. Neste caso, com um tigre de Bengala, de 230 kgs. de seu nome SHIVA, que ontem morreu e morreu da forma mais horrivelmente possível para uma criatura de tal majestade. Para a linha dura de aficionados desta maravilhosa epopeia (TWD) por um mundo de mortos vorazes e vivos ainda mais assustadores que estes, e mesmo que esta temporada (8) ainda vá dando os seus primeiros passos, este foi o 4ª episódio, o fim do animal de estimação do Rei Ezequiel, sacrificando-se para o salvar, não poderia ser mais arrebatador e de partir o coração. Para ser justo, convêm não esquecer a morte de vários dos súbditos de Ezequiel, que logo se tornaram zombies e se levantaram em seu alcanço, …

Saudades de ver boas Séries...

...distópicas sim, mas tão actuais, tão exactas e palpáveis.  Tão dolorosas e verdadeiras.

Deixa-te estar à Luz.

Meio adormecido por fortes drogas (legais?) que lutam contra a traição de uma gripe que insiste em não ligar à minha predileção pelo frio, e ataca e ataca-me em vagas sucessivas, fugi ao tabaco e meti-me a fundo por dentro do álcool e dos analgésicos, cheio de armaduras antipiréticas, descongestionantes nasais, anti-histamínicas, uma horda de absurdos químicos em forma de exército defensor que não derrota nada. Antes que desse por isso, entrei neste reino de poesia bela e surreal a cambalear de arrepios. A gripe é uma luz regular que nos foge do corpo, um calor normal que esmorece. Não pode. Não deixo. Hei-de vencê-la nem que seja por pura irritação.

Pensamentos avulsos VII

Pequena nota para chamar a atenção para as coisas boas da vida, que, ando sempre demasiado distraído para ver, e só me colam à memória como saudades boas. Ou apontamento para não deixar passar em branco muitos beijos e abraços a quem tanto me procura e dos quais só fujo. Estou assim em Dez de Novembro de Dois mil e dezassete, o que sinto estranho, mesmo na sensibilidade dos dedos enquanto o escrevo. Vindo de quem viu a sua vida salva pela música gótica não cabe em qualquer exactidão, sobretudo em um Universo que raramente se desleixa.  Breve exposição de como estou. Estou assim, tenho uma arma na mão, é líquida, fumegante e um historial de reflexos involuntários que nem tremem nem nada. Isto é o que mais me assusta. Hoje estou assim, a precisar de fugir por aí fora à procura só das histórias que me queiram contar pelas ruas, amanhã dia Onze de Novembro do mesmo ano, poderei meter o amor no carro e fazer uma viagem mais longa e rica, ou poderei já estar morto. Não tenho medo e não há med…

Ser jovem outra vez e esclarecido desta vez.

Não sei bem explicar porquê, mas, esta canção marcou-me imenso quando a ouvi pela primeira vez, ali pelos arrabaldes dos pré-púberes oitentas. Por essa época nem conhecia quase nada do Bowie. Ouvira até à exaustão o "Let's Dance" e o "China Girl", sem me fazer grande abalo ou alarido. Andava longe do 'glam' e à solta pelo gótico e pop alternativo. Só me apaixonei por ele quando conheci a minha namorada fanática pelo camaleão David, pelo herói David. A minha namorada que é agora a minha mulher e que me ensinou a gostar deste homem. Não é maravilhoso isto? Eu nunca a apanhei nesse exacto caminho, quer isto dizer, ela nunca se apaixonou assim, tão perdidamente, por nenhum dos músicos, bandas, artistas, que eu, na altura (e ainda) adorava e adoro. Nunca a levei a mal por isso. O coração quer o que o coração quer ouvir e amar. "All the Young Dudes" não é um grande êxito do David Bowie, mas é um hino e tanto. De certa forma é quase algo religioso. Co…

O Sartre sabia umas coisas

Agá

No dia agá acordei a ver os brancos dos meus
olhos tornarem-se vermelhos.
Podia ter feito qualquer coisa
menos cantar canções sobre o futuro.
Cantei, mesmo assim.
No espelho viam-se-me os braços partidos
fracturados pela ausência
dos meus sonhos mais velhos.
Lá embaixo,
três crianças brincam onde o sol poisa.
Haviam logo de brincar hoje.
Malditas!
É áspero o seu escárnio, exactamente virado a mim.
É duro,
observar todos os meus sonhos varridos
no fluir líquido desta demência.
Mas há sempre um relâmpago senil,
Foge-me pelas frestas do sorriso vão
insidioso.
Volume perene de escombros
no arquipélago da loucura.
Não haveriam de estar crianças aqui.
Aqui há só escuro
é tudo fel, mal, é tudo vil.
Não deveria aspirar a algum futuro bom.
Jamais o mereço.
Abro a janela de par em par,
a espantar as crianças com os meus típicos barulhos
sons da minha auto-tragédia que perdura.
Elas brincam, e vivem e eu só não esqueço.
Malditos sorrisos das crianças!
Não sabem que sem a serenidade os sonhos nã…