Avançar para o conteúdo principal

Mensagens

Publicação em destaque

As Crónicas do Senhor Barbosa VII

O Senhor Barbosa viu os padrões da chuva colados a stencil na janela central da sala comprida e ficou algum tempo parado a esperar pela razão nos intervalos das gotas desavindas. Pois naquele instante a rua povoava-se apenas de donos de cães joviais cumprimentando-se uns aos outros e achou-se reles e maligno como um animal doente. O novo ano trouxera-lhe alguma percepção aguçada como todos os novos anos lhe traziam, mas perdera-a completamente entre as passas e as resoluções. Este deja vu era tão impiedoso que já era uma amarga tristeza que o impregnava nos anos novos de isolamento. Continuava a ser o tipo de homem que olha através de janelas, que faz da vida uma camisa-de-forças impossibilitando-lhe os movimentos e também o tipo de homem que persegue causas perdidas com nomes femininos.
E quem visse de fora, pareceria-lhes que continuava igual a antes, só que, agora, tinha noção de que mais um ano se passara e ele, Senhor Barbosa, já não caminhava para nenhum lugar cheio de maravilh…
Mensagens recentes

Porque hoje é seu aniversário

- Adeus -

Já gastámos as palavras pela rua, meu amor, 
e o que nos ficou não chega 
para afastar o frio de quatro paredes. 
Gastámos tudo menos o silêncio. 
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas, 
gastámos as mãos à força de as apertarmos, 
gastámos o relógio e as pedras das esquinas 
em esperas inúteis. 

Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada. 
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro; 
era como se todas as coisas fossem minhas: 
quanto mais te dava mais tinha para te dar. 

Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes. 
E eu acreditava. 
Acreditava, 
porque ao teu lado 
todas as coisas eram possíveis. 

Mas isso era no tempo dos segredos, 
era no tempo em que o teu corpo era um aquário, 
era no tempo em que os meus olhos 
eram realmente peixes verdes. 
Hoje são apenas os meus olhos. 
É pouco, mas é verdade, 
uns olhos como todos os outros. 

Já gastámos as palavras. 
Quando agora digo: meu amor
já se não passa absolutamente nada. 
E no entanto, antes das palavras gastas, 
tenho a certe…

A derradeira desilusão

A maior tristeza que imagino agora é crer que alguém me acredita como quem o denuncia por ser quem é. Faz-me triste, porque acreditar que alguém de quem gosto imagina isso, quando eu próprio me debato contra a apatia de quem nada contra mim faz, põe-me no extremo exposto da inexistência absoluta, e é claro, para quem me conhece bem pelo menos, só isso é que me entristeceria realmente, pois sou egocêntrico por todo e só choro por mim mesmo. Agora sejam normais e excomunguem-me das vossas vidas. É natural que o façam, pois não presto para ser parte normal destas. Só se me aproveitam os pedaços inesperados, os momentos inusitados ou os trechos invulgares da minha escrita. O resto são dejectos e fazeis tão bem em deitá-los fora. Tão bem. Deitem-me fora como o lixo.

Sobre a profunda idiocracia de se 'fazerem' escritores

Curso prático 'Publicar o meu livro' | 17 e 24 de fevereiro Livraria Bertrand Shopping Cidade do Porto Formadora: Rita Canas Mendes.

Não acredito em currículos ou diplomas ignóbeis, impressos em massa numa "Staples" mais próxima. Acredito apenas no 'bom dinheiro' que muitos irão dispensar a este curso, cegamente imersos naquela esperança inflexível de que isto os fará 'escritores' e daqueles eternos.  De que isto lhes abrirá portas, lhes criará oportunidades. É tão obsceno este 'isto' que me faltam os adjectivos mais superlativos para o qualificar. E foco-me neste projecto da Bertrand apenas porque me apareceu debaixo dos olhos. Não estou a singularizar a Bertrand. Muitos outros, consideravelmente mais 'insignificantes' que a Bertrand têm-no feito. É quase tão desprezível condenar alguns, como a Chiado Editora, por estabelecerem um modelo de negócio tão letal para as aspirações de um jovem escritor como equipará-lo a estes enormes consórc…

As Crespas Manhãs de algum Janeiro

Qualquer jardim nunca nos parece selvagem
só um ajuntamento de belas formas,
muitas vivas, quase. Muito nossas sobretudo, mãe.
Mas andamos perdidos em um mar cintilante
de solidão, mãe. Andamos crianças ainda
a gatinhar cambaleantes na nossa sofreguidão de pessoas futuras.
Não sabemos nada sobre jardins
ou porque quis tanto Alexandre chegar à Índia
sobre um rastro de sangue.
Oh, o Sol está vermelho, mãe
e o bosque tão negro,
morto na invisibilidade do verdadeiro escuro.
Devem-nos a construção das formas falsas do verde e da luz,
a sua aparência
humana, quase, mãe.
Devem-nos a sua ingratidão planetária
o seu fim conquistado em tantas batalhas inúteis.
Porque quis César ser Imperador, ou Hitler personificar a morte?
O que querem os homens frustrados deste jardim inventado, mãe?

Graças aos nossos esforços e convenções
às nossas conveniências rigorosas,
a constante busca humana pelo que é elusivo
indefinível, derrota-se a si mesma.
E a harmonia a que chamamos beleza
definha, mãe. Morre j…

Uma Cidade que vai contar Histórias

Aberto ao público em geral  - A não perder no próximo Domingo -  Casa da Cultura de Santa Comba Dão.


Os meus sentidos agradecimentos ao mentor deste projecto, Amaro Figueiredo, pelo convite que me lançou para participar neste projecto. Tomara que houvessem mais como tu neste país, Amaro. Obrigado.

Pensamentos Avulsos XI

O bem que se faz é facilmente esquecido. O mal, no entanto, guarda-se até o fim pois não há nada mais difícil que o perdão incondicional.

...É preciso não esquecer que ainda se escrevem Romances

(...)
"A noite está tomada por estranhas sombras, compridas e escuras.Chegou a ser cruel a minha observação, no rigor com que deixou a nu as minhas deficiências mais visíveis. Levantei-me do chão quente e fui para casa, para comprar tempo, antes que alguém me visse ali e me deitasse desaforos por mim abaixo. Fiquei a olhar o quadro anterior que ainda tinha fresco na memória, até me ocorrer um pensamento obsceno, o mais belo de todos: E se tivesse sido León Xótsia o assassino da gata? Se tivesse sido ele também o precursor daquele incêndio? E se fosse efectivamente, aquele meu único amigo, a mais deliciosa e perversa criatura deste prédio? – Passou-me um arrepio eléctrico pelo corpo todo. – Como seria bom se isto fosse mesmo verdade, imaginar-nos realmente deuses, ou um deus a fazer por mim, para variar, em vez de contra mim, como se a maravilha da última decisão fosse só a consequência da sua vontade. Imagino que tudo seria perfeito, mesmo que, tão precipitadamente, entenda estar s…

Dia sim, dia não uma beleza antiga

Dolores O'Riordan

Nunca saberemos muito bem porque nos morrem sempre aqueles de quem gostamos. Morrem ao seu tempo, feito ou destinado, mas morrem e como gostamos deles sentimos que são esses que nos morrem, sempre. Talvez, em si mesmo, seja já um desgosto anunciado gostar, mostrar apreço, ter afeição e a única sorte que nos calharia para não sentirmos estas mortes debaixo do Sol, seria morrer antes destes.  Em princípios dos anos 2000 (já um pouco tarde, mas nunca tarde demais) uma amiga apresentou-me os Cranberries, uma banda irlandesa de rock alternativo, indie-pop, post-punk, folk, dream-pop, sei lá. Nunca liguei muito a estes rótulos. Emprestou-me o álbum "Bury the Hatchet" (1999), um disco excelente, e assim que ouvi aquela voz feminina (Dolores) a segurar por completo todas as músicas do disco, fiquei apanhado. Completamente encantado. É certo que tenho uma moderada 'panca' por quase tudo que me chegue da ilha esmeralda, mas aquela mulher conquistou-me no primeiro solfejo. A s…

O declínio do Falso Social

Valha-me o Miles, ao menos!