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Piquenas estórias de amore VIII

Já era quinta-feira e o mundo continuava fantástico.

Disse-me que sim: "É tudo simples, viver é simples. Que mais há para ser dito sobre o amor? que é bom, que existe?  - E sobre as ausências e os grãos de desespero pelo mundo afora? Que crescem e crescem, sem parar. E sobre as cordilheiras de pura dor que atravessam o mundo? - Pergunto-lhe. - Que são o que são, e que não há nada demais nisso. E sobre os abraços espontâneos de um filho, não queres falar? E sobre aquela borboleta que me entrou ontem pela janela. Sobre os dois euros que encontrei num casaco de Inverno e te convidei para vires tomar café hoje comigo. Sobre estas coisas, queres falar? Acuso-o de optimista, e ele sorri com gratidão: "Sou. Coisas há que nos dão garantias de estabilidade aos dias. De contrário, chega Dezembro, e nada feito a que se chame vida. Rio-me e penso que talvez aquilo seja uma estreiteza que lhe deu neste dia. Está bem que ele não queira viver para sempre, mas rio-me porque lhe apetece que os ou…
Mensagens recentes

Mamas há muitas...

“Entrevistei uma jovem antropóloga trabalhando com mulheres em Mali, um país da África onde as mulheres andam com os seios nus. Estão sempre amamentando seus bebés. E quando ela lhes contou que em nossa cultura os homens são fascinados com seios, houve um instante de choque. As mulheres caíram na gargalhada. Gargalharam tanto que caíram no chão. ‘Quer dizer que os homens agem como bebés?’, disseram”.  

(Carolyn Latteier, no livro All About Breasts)

Chester Bennington

O Chester não conseguia mais decidir se era homem ou  máquina ou se a dormência seria um estado temporário. Ou a solidão ou o monólogo interior de rendição levarem-lhe a melhor, e optou pela máquina. No fim, suponho, já pouco interessa. Desligou-se.
Os Linkin Park nunca foram muito a minha praia sonora mas  têm duas ou três músicas que ainda mantenho numa playlist algures. Se forem ver com atenção, as letras das suas músicas, todas seguidinhas, contam uma história assim para o deprimente. Não sei. Isto das mortes de músicos começa a tornar-se uma epidemia. 


Ele bem que avisou.

We've Landed on the Moon

Foi há 48 anos....





...pelas nuvens.

Voar onde só despontem nuvens de aceitação,  é fácil... Difícil,  é pairar acima da distracção de todos e manter a leveza de um pássaro orgulhoso, que nem se importa, de mesmo assim, cair.


Bonito, bonito...é passear o bicho

Escreve-se porquê?

Nunca fui moço de ter heróis de vida. Andei sempre muito para dentro de mim mesmo, e ainda o faço. Vi muitos, todos feitos de malhas felizes e movimentos sem freios e fugi-lhes dos caminhos, desconfiado, sempre que pude. Tive as cuecas metidas no rego mais vezes do que achei razoável, mas nem assim mudei para menos crica do que aquilo que sou. Primeiro foram os LEGOS, e aquilo tomou-me de assalto e durou anos e anos de satisfação indolor. Não havia maneira de me cansar daqueles encaixes coloridos. Faziam-me sentido, acalmavam-me e já me instruíam um pouco na arte de se contar uma história. Depois, mostrei as cores das minhas verdadeiras compulsões e atirei-me ao coleccionismo. Coleccionei praticamente de tudo a que podia deitar a mão sem grandes custos; selos, latas, rótulos, moedas, isqueiros, bases de copos.. acalmei todo este furor, ou quiçá o tenha substituído por outro, quando li a primeira revista da Editora Abril do Pato Donald. A inocência não sabe de que terra é, e eu, fundame…

Repetir o belo até ao infinito

Ficaria a ver-te cintilar até as estrelas todas desaparecerem no infinito...

O Surto

Donato vinha apressado, trazia a maleta na mão direita e, assim que virou aquela esquina manhosa, perdeu logo a conta dos passos até reduzi-los num nada. Encostou-se cambaleante à parede da padaria e por ali mesmo ia escorregando devagarinho até se ver sentado na calçada com a maleta defronte. Cinco transeuntes fizeram-lhe cerco e as questões vinha todas seguidas e todas muito iguais: "O senhor está bem? Senhor Donato, sente-se mal? Sente-se bem Senhor Donato?" - Alenquer Donato, era uma figura que quando abria a boca pela cidade os outros fechavam as suas de imediato. Fazia muito por abri-la agora, movia os lábios com vontade, mas nada de respostas. Um senhor alto e todo vestido de azul sugeriu que sofria muito, dos ataques que deitam as pessoas ao chão. Donato reclinou-se, estava agora deitado ao comprido pelo passeio e um rapaz novo, esgalgado por ele todo, pediu aos outros que lhe dessem espaço à respiração. Abriram-lhe o casaco pelo trespasse, alargaram o colarinho e o…

Os movimentos das eleições

Os tempos da democracia unilateral eram outros. Agora é um nadinha mais complicado dizer coisas destas. É que, descontando a formalização dos anos todos iguais, há um subconsciente novo malsão político que emerge em Vila do Conde.  Sempre esteve por aqui. Isto é, deixado em relativa liberdade ou minimamente condicionado. Por muito que a evolução da cidade e, em reduzidíssima parte, do concelho, tenha demonstrado a necessidade da vida comunitária para a sobrevivência desta unilateralidade, ao fim deste tempo todo, assumiu-se por fim a selvajaria, (expressão por mim utilizada, não pelos brutos em si) e este ano, ao que parece, ganhamos a hipótese de uma eleição possível de chegar de muitos lados diferentes, de tantos movimentos. Tem os seus méritos óbvios, é natural que tenha. A Democracia necessita das fracturâncias para se lavar de tempo em vez. E romperam-se muitas coisas por aqui. Lealdades, confianças, posturas, dignidades, programas eleitorais, até o bom senso se partiu ao meio, por…

O Coração Abstracto

Procuro que o sublime, jamais nos encontre ou tenha a audácia de entrar sozinho, para dentro de mim. Às vezes, pelo mar dentro entro eu e levo-te, confiante, só com uma vela na mão. Tropeçamos nos nossos próprios gigantes e lá atrás explode-nos inteiro o céu num refulgente clarão. Abro uma recta com as pernas a nadar ao meu lado, lutas contra tudo de que nos despedimos e ao longe automático, já se reduz o pó mirabolante destes nossos instantes. No mar também faz falta uma luz

A luz surge onde nenhum sol brilha…

A luz surge onde nenhum sol brilha; Onde nenhum mar se agita, as águas do coração Fazem avançar as suas marés; E, fantasmas destruídos com vermes nas suas cabeças, Esses objectos de luz Percorrem a carne onde nenhuma carne esconde os ossos.
Uma candeia junto às coxas Aquece a juventude e a sua semente, queimando a semente da idade; Onde nenhuma semente cresce, O fruto do homem mostra o seu vigor nas estrelas, Brilhante como um figo; Onde nenhuma cera existe, a vela apenas mostra os seus cabelos.
A manhã surge atrás dos olhos; E o sangue agita-se como um mar Da cabeça aos pés; Sem defesa nem protecção, as nascentes do céu Irrompem dos seus limites Ao darem-se conta de um sorriso no óleo das lágrimas.
Como uma lua a noite cerca Com sua órbita os limites do mundo; O dia nasce nos ossos; Onde nenhum frio existe, a tempestade destrói As roupas do inverno; E a primavera surge nas pálpebras.
A luz surge em lugares secretos, Nos limites do pensamento, onde à chuva se sente melhor o seu aroma; Quando a lógica morre, O s…

George A. Romero

Os grandes são assim, eles morrem e a gente põe-se em bicos dos pés, a falar de nós a pretexto deles, tentando abocanhar a nossa pequena parte da história. A minha nasceu com este filme: "Night of the Living Dead" que vi na RTP 2 lá pelo estranho ano de oitenta três ou oitenta e quatro, em uma idade em que mal me cresciam os pelos em sítios sem luz solar. Podia jurar que estive muito valente lá sentado, às escondidas do sono leve dos meus pais, mas não seria verdade. Raio de coragem do homem, que se lembrou de reinventar um género inteiro de cinema, e de trazer por arrasto milhões de pessoas a desejarem se assustar. Segui-lhe o palmarés com atenção redobrada este tempo todo e nunca muito me desapontou. Encontrei-lhe a veia criativa a vir de novo ao de cima no delicioso e mui inteligente: "Dawn of the Dead" 1978, que ainda hoje me empurra para longe dos centros-comerciais, menos inchada em "Day of the Dead" 1985, mas já lhe vi a genialidade tantas vezes hom…

Martin Landau

Cena mítica de um dos grandes filmes de Hitchcock "North by Northwest" 1959, que nunca teria o impacto que teve, não fosse o pé deste senhor se ter lembrado de ser tão bom actor.



Até sempre Martin Landau (1928-2017)


Piquenas estórias de amore VII

- Olha, o passarinho. ri-te, vá lá. - Ri-te tu, antes. Diz qualquer coisa engraçada. - Digo o quê? - Sei lá, qualquer coisa. - Está a gravar, senhor? Quando formos grandes, seremos artistas, sabe? - Sim. Filmamos já os outros meninos. Ainda haveremos de ser artistas. - Mas como, se não temos aquela geringonça? - Olha, assim.  - Com as mãos no ar? - Sim. Depois vamos ali ao coreto e treinamos os teatros.  - Posso cantar? - Podes fazer aquela coisa de cantar. És tão tapada.  - Tu fazes aquela em que tens os braços abertos e desces os degraus, a sorrir.  - Faço pois, e tu cantas. Se fizermos muitos teatros e muitas canções, e se convidarmos toda a gente, depois podemos ir à mercearia da D.Laura comprar caprisonnes fresquinhos. - E aquela coisa que tira retratos, quando compramos? - Não sejas trenga. Fica séria, agora. Mas depois tens de cantar, sim? Vais ver, quando tiveres óculos escuros é que vai ser.  - Tens cá umas manias. Isso não pode ser só teatro.  - Chiu, cala-te agora. Fazes umas danças e canta…